Empresas que não avançarem em gestão de dados e digitalização terão mais dificuldade para acompanhar nova estrutura tributária
Esse talvez seja o principal ponto que o empresário do setor precisa entender neste momento. Existe uma transformação estrutural em andamento, mas ainda não há todas as respostas. Por isso, é importante cautela diante de discursos que apresentam soluções definitivas para um cenário que continua em construção.
No varejo farmacêutico, algumas diretrizes já permitem visualizar mudanças relevantes. Uma delas é o fim da lógica atual de lista positiva e lista negativa de medicamentos. A tendência é caminharmos para um modelo mais simplificado, com uma única lista e um único markup para medicamentos, embora os detalhes ainda dependam de regulamentação oficial.
Outro ponto importante é a previsão de redução de 60% na tributação dos medicamentos dentro do novo sistema. A medida reconhece o caráter essencial do acesso à saúde e pode ampliar a previsibilidade tributária do setor. Ainda assim, é preciso lembrar que farmácias não comercializam apenas medicamentos. Parte significativa do mix envolve produtos de higiene, beleza, conveniência e suplementação, que continuarão sujeitos à tributação integral. Isso tornará a gestão tributária ainda mais estratégica e complexa.
A partir de 2027, começam também as alterações relacionadas aos tributos federais sobre consumo. No novo modelo, deixam de existir tributos como PIS, Cofins e IPI, substituídos por um novo sistema de cobrança. Embora a proposta seja simplificar, o período de transição exigirá revisão de processos internos, atualização tecnológica e forte capacidade de gestão.
Talvez esse seja o principal caminho para as empresas neste momento: organização, modernização e digitalização. Independentemente das definições que ainda serão publicadas, existe uma realidade já colocada para o varejo farmacêutico. Empresas que não avançarem em gestão de dados, integração de informações, automação de processos e digitalização terão mais dificuldade para acompanhar a complexidade dessa nova estrutura tributária.
O setor precisará trabalhar cada vez mais apoiado em inteligência de dados, rastreabilidade fiscal e sistemas integrados capazes de garantir eficiência, segurança e previsibilidade operacional. Em um segmento que lida diariamente com milhares de produtos, regras fiscais distintas e margens pressionadas, a digitalização deixa de ser apenas uma tendência para se tornar uma necessidade estratégica.
O varejo farmacêutico brasileiro já demonstrou inúmeras vezes sua capacidade de adaptação. Passamos por mudanças regulatórias, avanços tecnológicos e novas exigências de comportamento do consumidor. A reforma tributária será mais um movimento que exigirá maturidade empresarial e ferramentas de gestão capazes de tornar as operações mais eficientes.
Neste momento, o mais importante é compreender que a reforma exigirá das empresas capacidade de adaptação, investimento em informação qualificada, modernização da gestão e avanço nos processos de digitalização. O empresário que entender esse movimento estará mais preparado para enfrentar os desafios dos próximos anos com planejamento, prudência e decisões estratégicas bem fundamentadas.
Edison Tamascia
Presidente da Farmarcas e da Febrafar (Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias)