
Raniery Araújo Coelho
Os empresários brasileiros já não têm margem para escolha ou adiamento. A Reforma Tributária, a partir de janeiro de 2026, entrou em sua fase de transição e seus efeitos começam a se materializar no dia a dia das empresas. Em especial, micro e pequenos negócios já sentem impactos diretos no caixa ao serem obrigados a se adaptar a um novo modelo de tributação sobre o consumo, que exige mudanças operacionais profundas, revisão de processos e adoção de novas tecnologias.
Durante este período, as empresas precisarão conviver simultaneamente com dois sistemas: o modelo atual e o futuro, que incorpora tributos como o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o Imposto Seletivo. Neste cenário híbrido, erros de gestão podem gerar prejuízos silenciosos, corroendo margens de lucro e comprometendo a saúde financeira dos negócios. Apesar dos alertas já feitos por entidades empresariais e especialistas, muitos ainda pagarão o alto preço da falta de preparo – um custo que pode superar, em muito, o impacto dos próprios novos tributos.
Diante disto, é fundamental chamar atenção para erros que já estão afetando empresas durante a transição e que precisam ser evitados com urgência:
Precificação baseada no modelo antigo de ICMS e ISS
Manter a formação de preços ancorada exclusivamente no modelo atual é um dos equívocos mais graves. A introdução do IBS e da CBS- e, em alguns casos, do Imposto Seletivo- faz com que a carga tributária varie significativamente conforme o produto, o serviço e o local de consumo. Isso altera de forma estrutural a composição de custos e margens. Ignorar essa nova realidade resulta em preços defasados, margens negativas e perda de competitividade.
Desconsiderar a tributação no destino das vendas
A nova lógica tributária rompe com o princípio da tributação na origem e passa a considerar o destino da operação, ou seja, a localização do cliente. Na prática, o custo tributário passa a depender diretamente de quem compra, onde compra e de que forma a operação é realizada. Sem controles por cliente, região, canal de venda e tipo de operação, as empresas perdem a visibilidade dos custos reais e ficam expostas a impactos inesperados sobre o resultado financeiro.
Falhas no controle de créditos na não cumulatividade plena
A não cumulatividade plena representa um avanço em termos de neutralidade e justiça tributária, mas apenas para empresas que conseguem gerenciar corretamente seus dados fiscais. Muitas organizações não sabem exatamente quais operações geram crédito tributário e, por isso, acabam pagando mais impostos do que o necessário. O aproveitamento correto dos créditos é essencial para proteger o caixa e evitar que os potenciais ganhos da nova sistemática sejam anulados por falhas operacionais.
Confundir gestão financeira com gestão fiscal
Embora interligadas, gestão financeira e gestão fiscal têm finalidades distintas. A primeira está voltada ao fluxo de caixa, rentabilidade e planejamento de recursos; a segunda, à conformidade legal, apuração e recolhimento de tributos. Confundir esses papéis leva a decisões equivocadas. Com a convivência simultânea de dois sistemas tributários, ajustes de créditos e possíveis aumentos de recolhimento no curto prazo, o controle rigoroso das regras fiscais torna-se indispensável para evitar impactos diretos no caixa. Neste contexto, o estoque assume papel estratégico, pois passa a influenciar diretamente o preço, a margem e o volume de créditos tributários.
Falta de revisão de contratos e modelos de cobrança de serviços
O setor de serviços será um dos mais impactados pela Reforma Tributária. Empresas que não revisarem contratos e modelos de cobrança durante a transição correm sério risco de absorver custos adicionais, reduzindo margens ou até operando no prejuízo. Será imprescindível avaliar quais custos podem ser repassados aos clientes, quais os que precisarão ser absorvidos e realizar simulações para garantir sustentabilidade durante o período de adaptação.
A Reforma Tributária impõe, portanto, uma nova lógica de gestão empresarial. A sobrevivência e a competitividade das empresas dependerão da integração de processos, do monitoramento constante das operações e, sobretudo, da qualidade das informações utilizadas na tomada de decisão. Para micro e pequenos negócios, antecipar ajustes não é apenas uma medida defensiva, mas uma estratégia essencial para preservar margens, manter competitividade e garantir sustentabilidade no novo ambiente tributário.
é presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Rondônia-Fecomércio/RO e vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo-CNC.