SPLIT PAYMENT: A REVOLUÇÃO SILENCIOSA QUE VAI TRANSFORMAR O CAIXA DE SUA EMPRESA
Raniery Araújo Coêlho (*)
A Reforma Tributária brasileira avança depressa- rápido demais para a maioria das empresas, especialmente as pequenas e micro, que ainda não despertaram para a profundidade das mudanças em curso. Entre os mecanismos previstos, um dos mais relevantes e menos compreendidos atende pelo nome de split payment. O termo em inglês, que significa literalmente “pagamento fatiado”, esconde sob uma aparência técnica um impacto concreto e avassalador sobre as operações empresariais, em especial no varejo. Trata-se de uma transformação financeira que mudará radicalmente a gestão de caixa já a partir de 2026, quando começa o período de testes.
O que é o split payment?
O split payment– ou pagamento dividido- consiste na separação automática dos valores devidos a cada parte no exato momento da transação. A lógica não é nova: já opera de forma quase invisível no cotidiano do consumidor. Um exemplo claro são as plataformas de delivery. Ao fazer um pedido, o valor pago é automaticamente repartido entre o restaurante, a plataforma e o entregador, conforme contrato previamente estabelecido.
A diferença fundamental é que, agora, essa mesma lógica será aplicada pelo governo de forma impositiva e legal aos tributos sobre o consumo – especificamente a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e, futuramente, o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços).
Na prática, ao realizar uma venda, a empresa não receberá mais o valor integral da operação para depois recolher os tributos. O imposto será separado no instante do pagamento e direcionado diretamente ao Fisco.
O fim de uma dinâmica histórica
Esta mudança rompe com uma lógica enraizada no sistema tributário brasileiro. Hoje, empresas do varejo e do atacado operam com um intervalo entre o recebimento da receita e o pagamento dos tributos- uma janela que permite uma gestão de caixa mais flexível. Em muitos casos, esses recursos temporários são usados como capital de giro, para pagamento de fornecedores ou para a organização financeira do negócio.
É justamente essa folga que o split payment elimina. Embora a carga tributária em si não aumente, o fluxo financeiro muda substancialmente: o dinheiro que antes transitava pelo caixa da empresa simplesmente deixa de passar por ele, reduzindo a disponibilidade de recursos de forma imediata. O imposto passa a ser recolhido online, em tempo real, sem pedágio pelo caixa do contribuinte.
Um tema fora do radar
O que se percebe no contato com empresários é que o split payment ainda não entrou no radar da maioria dos gestores– inclusive dos que serão mais afetados: redes de supermercados, farmácias, lojas de materiais de construção e negócios similares. São setores que operam com margens apertadas e alta dependência de capital de giro. Neles, qualquer alteração no fluxo de caixa produz efeitos rápidos e severos sobre a liquidez.
O exemplo mais emblemático é o de uma rede de supermercados com grande volume de vendas diárias. Hoje, a parcela correspondente aos tributos permanece temporariamente no caixa até a data de recolhimento. Esse montante ajuda a sustentar a operação no curto prazo. Com o split payment, esse valor não entra mais: é automaticamente transferido ao governo, reduzindo a disponibilidade de recursos de maneira drástica.
O mesmo raciocínio se aplica a todo o varejo e ao comércio eletrônico. Sem esse “colchão” financeiro, o planejamento passará a exigir um nível muito maior de atenção e disciplina.
O desafio tecnológico e a necessidade de adaptação
Há ainda a dimensão tecnológica. É indispensável que sistemas e processos internos estejam plenamente adaptados para operacionalizar o split payment. Isso significa:
- Revisar o fluxo de caixa projetado para os próximos meses, considerando a ausência desses recursos temporários;
- Aprimorar a gestão de capital de giro, o que pode envolver renegociação de prazos com fornecedores, revisão de políticas de crédito e, em muitos casos, até a busca por linhas de financiamento;
- Reavaliar a precificação. Ainda que o split payment não aumente diretamente a carga tributária, ele impacta de forma significativa a dinâmica financeira do negócio. Para muitas empresas, as margens atuais podem não se sustentar nesse novo contexto.
Informação é vantagem competitiva
Por fim, é fundamental acompanhar de perto a regulamentação. Trata-se de um sistema novo, que passará por ajustes ao longo da implantação. Estar atento e bem informado fará diferença decisiva na competição.
O split payment não é apenas mais uma mudança tributária: é uma transformação na forma como o dinheiro circula dentro das empresas. Compreender isso é o primeiro – e mais urgente- passo para enfrentar um cenário que redesenha as regras da competitividade nos próximos anos.
(*) É presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Rondônia-Fecomércio/RO e vice-presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo-CNC.