CNC alerta para riscos de fixação de piso nacional dos farmacêuticos

CNC alerta para riscos de fixação de piso nacional dos farmacêuticos

Em debate na Câmara dos Deputados, entidade aponta impacto desproporcional em regiões de menor renda e defende negociação coletiva

Em audiência pública da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) se posicionou contra a fixação de piso salarial nacional único para farmacêuticos ao avaliar que a proposta pode gerar impactos desiguais entre as regiões do País. O debate, realizado na terça-feira (5), tratou do Projeto de Lei nº 1.559/2021 e foi realizado com base no requerimento do deputado Hildo Rocha (MDB-MA) e da deputada Laura Carneiro (PSD-RJ).

Representando a CNC, o coordenador da Câmara Brasileira de Produtos Farmacêuticos (CBFarma), diretor da Confederação e presidente da Fecomércio-RN, Marcelo Queiroz, ressaltou que a entidade reconhece a importância estratégica do profissional farmacêutico para o sistema de saúde e defende a valorização da categoria. No entanto, afirmou que o modelo proposto no projeto ignora as profundas desigualdades regionais do Brasil e pode comprometer a sustentabilidade de milhares de estabelecimentos, especialmente em regiões de menor renda e em municípios de pequeno porte.

Com quase 50 anos de atuação no comércio farmacêutico, Queiroz enfatizou que a CNC não se posiciona contra os profissionais, mas contra a adoção de um piso nacional uniforme. Segundo ele, estabelecer valor único em um país com realidades econômicas tão distintas desconsidera diferenças relevantes de renda e capacidade contributiva. Enquanto a renda per capita do Nordeste corresponde a cerca de metade da média nacional, a da região Centro-Oeste supera essa média em aproximadamente 30%, o que evidencia os riscos de uma aplicação homogênea da medida.

Durante a audiência, o representante da Confederação explicou que, com a atualização monetária prevista no texto do PL nº 1.559/2021, o piso proposto já se aproxima de R$ 8 mil. Considerando-se encargos trabalhistas, obrigações sociais, férias e 13º salário, o custo mensal por profissional pode chegar a aproximadamente R$ 13 mil. Como a legislação exige a presença do farmacêutico durante todo o horário de funcionamento das farmácias – inclusive à noite, fins de semana e feriados –, muitos estabelecimentos precisam manter, ao menos, três profissionais, o que pode elevar o custo mensal para cerca de R$ 40 mil.

Queiroz informou que o setor farmacêutico emprega cerca de 500 mil trabalhadores em todo o País. Apenas nas farmácias, o impacto anual estimado com a aprovação do piso chega a R$ 1,9 bilhão, com risco de fechamento de estabelecimentos e eliminação de aproximadamente 50 mil postos de trabalho. “Considerando todos os farmacêuticos em atividade, inclusive os que atuam em hospitais, unidades básicas de saúde e serviços de pronto atendimento, o custo adicional pode alcançar cerca de R$ 5,5 bilhões por ano”, explicou.

Em sua fala, o coordenador da CBFarma chamou a atenção ainda para o perfil do varejo farmacêutico brasileiro, composto majoritariamente por micro e pequenas empresas, muitas delas optantes pelo Simples Nacional: mais de 90% das farmácias do País se enquadram nesse perfil; cerca de 25% dos municípios brasileiros têm menos de 5 mil habitantes e, em muitos deles, existe apenas uma farmácia, que desempenha papel essencial no acesso da população à saúde.

“Quando uma farmácia fecha, sobretudo em pequenas cidades ou nas periferias, não é apenas o empresário que perde. A população fica desassistida, sem acesso a medicamentos, sem empregos e sem renda”, alertou Queiroz.

Além dos impactos no setor privado, o representante da CNC ressaltou os efeitos da proposta sobre o setor público. Estados e municípios, especialmente os de menor porte, enfrentam severas restrições orçamentárias e não dispõem de espaço fiscal para absorver aumentos expressivos de despesas com pessoal. “Em um cenário de necessidade de ajuste fiscal, ampliar gastos sem fonte de custeio definida pode agravar o desequilíbrio das contas públicas”, argumentou.

Ao mencionar a experiência recente do piso da enfermagem, Queiroz reforçou a necessidade de cautela por parte do Legislativo, com análises de impacto mais robustas, mecanismos de transição e respeito à viabilidade econômica dos empregadores, conforme já sinalizado pelo Supremo Tribunal Federal.

Como alternativa, a Confederação defende que a valorização dos farmacêuticos ocorra por meio da livre negociação e das convenções coletivas de trabalho, instrumentos que permitem adequar salários à realidade econômica de cada região, ao porte das empresas e às condições locais. Para a CNC, o Brasil não comporta soluções únicas e exige equilíbrio e responsabilidade no desenho das políticas públicas, de forma a evitar que uma demanda trabalhista se transforme em problema social.

Fotos: Mardônio Vieira

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