CNC defende fim da cobrança por “quarto vazio”

CNC defende fim da cobrança por “quarto vazio”

Durante audiência na Câmara dos Deputados, entidade alerta para práticas abusivas de concessionárias de saneamento contra hotéis e pousadas de ocupação sazonal

A cobrança por água não consumida por hotéis e pousadas foi alvo de críticas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em audiência pública da Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados. O debate, realizado na terça-feira (5), tratou das práticas contratuais abusivas de concessionárias de saneamento, especialmente contra empreendimentos de ocupação sazonal.

A audiência foi solicitada pelos deputados Paulo Pimenta (PT-RS) e Carlos Sampaio (PSD-SP) e reuniu parlamentares, representantes de órgãos reguladores e entidades do setor produtivo. A CNC foi representada por Ivone Ferraz Teixeira, presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do Litoral Norte e Região de Osório (RS), que falou em nome da Confederação, de 13 sindicatos da hotelaria do Rio Grande do Sul, além de representar o setor no âmbito da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) no Estado.

Durante sua fala, Ivone destacou que o setor hoteleiro do Litoral Norte gaúcho depende de uma alta temporada concentrada em apenas três meses – dezembro, janeiro e fevereiro. No restante do ano, a ocupação média dos estabelecimentos varia entre 10% e 12%, chegando ao fechamento temporário de quase metade da hotelaria da região durante a baixa temporada. “Não é justo pagar por quartos vazios. Trabalhamos três meses no ano e, no restante do período, muitos hotéis precisam fechar as portas”, argumentou.

A representante da CNC trouxe exemplos concretos para ilustrar a gravidade da situação. Proprietária de hotel no centro de Torres (RS), Ivone relatou que, mesmo em áreas centrais, a ocupação fora da temporada é mínima. “Em um dia comum de semana, cheguei a servir apenas seis cafés da manhã. Tivemos um bom movimento em um fim de semana específico, mas durante a semana a sazonalidade pesa muito. E isso não é uma exceção, é a regra para toda a região”, explicou.

Cobrança desproporcional e impacto financeiro

Segundo Ivone, a cobrança por “economias” – que considera o número de quartos e não o consumo efetivo – tem provocado aumentos abruptos nas contas de água, inclusive em períodos de baixa demanda. Ela relatou casos em que a fatura mensal saltou de R$ 3 mil para R$ 11 mil, comprometendo a sustentabilidade de pequenos e médios empreendimentos familiares, muitos ainda em recuperação após a pandemia e as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul.

“Na prática, um hotel com 50 quartos é obrigado a pagar como se tivesse 50 unidades permanentemente em uso. Isso significa pagar por um serviço que não foi prestado”, salientou. Para a CNC, o modelo transfere ao empresário do turismo custos que não lhe cabem, penalizando um setor já fortemente impactado por fatores climáticos, econômicos e sazonais.

Violação do Código de Defesa do Consumidor

A representante da CNC argumentou que a prática fere princípios do Código de Defesa do Consumidor, que veda a imposição de desvantagem exagerada e exige boa-fé e equilíbrio nas relações contratuais. Também citou a Lei nº 11.445/2007, marco legal do saneamento básico, que estabelece a proporcionalidade entre os serviços prestados e as tarifas cobradas.

Ivone também contestou o uso, pelas concessionárias, do Tema 414 do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para justificar a cobrança por economias. Segundo ela, o entendimento do STJ se aplica a condomínios residenciais, onde não é possível individualizar o consumo por unidade – realidade distinta da hotelaria. “Nos hotéis, o consumo é mensurável. Aplicar esse precedente ao setor é uma analogia indevida, que legitima uma cobrança manifestamente desproporcional”, ressaltou.

Poços artesianos

Outro ponto criticado foi a exigência de lacramento de poços artesianos regularmente outorgados como condição para a manutenção do contrato de fornecimento de água. De acordo com Ivone, muitos estabelecimentos utilizam essas fontes alternativas exclusivamente para fins não potáveis, como irrigação de jardins e abastecimento de piscinas.

“A legislação é clara ao proibir que concessionárias restrinjam o uso de fontes alternativas. O que se vê é o uso de uma posição dominante para impor condições que extrapolam os limites legais”, afirmou. Apesar de reconhecer a abertura ao diálogo por parte da concessionária e a realização de diversas reuniões, Ivone destacou que não houve avanço efetivo na revisão do modelo tarifário.

Defesa de regulamentação específica para hotéis

A representante da CNC reforçou, durante a sua participação na audiência, a necessidade de uma regulamentação específica para o setor hoteleiro que leve em conta a forte sazonalidade da atividade. “Nós não podemos pagar por orçamentos ou financiamentos que não são nossos. Cumprimos nossas obrigações, pagamos impostos em dia e temos o direito de receber uma infraestrutura justa”, defendeu, lembrando que representa mais de 1.500 hoteleiros.

“Como hoteleira há mais de 40 anos, não posso abrir mão de um direito que é de todos os hoteleiros, não só do Rio Grande do Sul, mas do Brasil inteiro”, concluiu.

Fotos: Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

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