Em debate na TV Câmara, CNC defende negociação coletiva para redução da jornada de trabalho

Em debate na TV Câmara, CNC defende negociação coletiva para redução da jornada de trabalho

Entidade alerta para impactos em empregos, renda e competitividade do comércio, serviços e turismo caso mudanças sejam impostas de forma generalizada

Ao participar de debate na TV Câmara sobre a proposta do fim da jornada 6×1, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) defendeu o fortalecimento da negociação coletiva como instrumento adequado para promover possíveis mudanças na jornada de trabalho sem comprometer empregos, renda e a competitividade do comércio, serviços e turismo.

O posicionamento foi apresentado pelo advogado especialista da Diretoria Jurídica e Sindical (DJS) da CNC Roberto Lopes, durante o programa Participação Popular, exibido ao vivo na sexta-feira (22), que discutiu os impactos econômicos e sociais das propostas que tratam do tema.

Segundo Lopes, a Confederação reconhece a importância do descanso, da convivência familiar e da saúde mental dos trabalhadores e é favorável à redução da jornada. No entanto, defende que esse avanço ocorra de forma negociada, respeitando o que já está previsto na Constituição Federal.

“A Constituição estabelece o limite máximo de 44 horas semanais e permite a redução da jornada por meio de convenção ou acordo coletivo. Esse modelo já vem sendo adotado em diversos setores, com empresas que operam em escala 5×2, por exemplo, fruto do diálogo entre empregadores e trabalhadores”, explicou.

O representante da CNC acrescentou que a experiência internacional mostra que a diminuição da jornada nos países do G20 ocorre majoritariamente por meio da negociação coletiva, com média de 39 horas semanais trabalhadas.

Impactos no comércio, serviços e turismo

No debate, Roberto Lopes falou da diversidade e da complexidade do setor representado pela entidade, que engloba atividades com características muito distintas, como comércio varejista, atacadista, turismo, hotelaria, segurança, limpeza e serviços especializados, muitos deles marcados por sazonalidade e funcionamento intenso nos fins de semana.

“Mais de 90% das empresas do comércio são micro e pequenas empresas, que já operam com margens de lucro reduzidas, capital de giro limitado e poucos funcionários. Uma redução imposta da jornada pode inviabilizar o funcionamento nos fins de semana ou a contratação de novos empregados para manter o nível atual de atividade”, explicou.

Segundo ele, a imposição de uma jornada menor, sem considerar essas especificidades, pode levar a efeitos indesejados, como fechamento de estabelecimentos, redução de postos de trabalho e perda de competitividade diante de grandes empresas ou plataformas digitais.

Risco de automação e impactos na renda

Outro ponto enfatizado pela CNC foi o risco de aceleração do processo de automação no comércio, especialmente entre os pequenos negócios.

“Se a microempresa não tiver condições de contratar mais trabalhadores para suprir a demanda, a tendência é investir em automação ou migrar para o ambiente digital. Isso pode resultar no fechamento de lojas físicas e na eliminação de empregos, afetando diretamente o mercado de trabalho”, alertou.

O advogado especialista também mencionou preocupações trazidas por trabalhadores do comércio, especialmente aqueles que recebem remuneração variável, como comissões.

“Dependendo da escala adotada, o trabalhador pode perder dias estratégicos de venda, como fins de semana, o que impacta diretamente sua renda. Essa é uma preocupação real que já foi relatada por comerciários”, avaliou.

Além disso, a redução da jornada imposta pode estimular o aumento da informalidade, com trabalhadores buscando atividades extras nos dias de folga para complementar a renda, o que vai na contramão do objetivo de melhoria da qualidade de vida.

Negociação coletiva como caminho sustentável

Ao longo de sua participação, o representante da CNC ressaltou que o fortalecimento dos sindicatos e da negociação coletiva é fundamental para garantir avanços equilibrados.

“Os sindicatos têm papel central nesse processo. É por meio da negociação coletiva que se conquistam benefícios sociais e econômicos, respeitando a realidade de cada setor e de cada região”, disse.

Para a Confederação, a discussão sobre a redução da jornada deve ser conduzida de forma técnica e responsável, considerando o conjunto de fatores que compõe o custo do trabalho no Brasil, como encargos trabalhistas, tributos e contribuições.

“Não se trata de ser contra o descanso do trabalhador, que é um direito fundamental. O que defendemos é que a discussão seja sistêmica, técnica e construída pelo diálogo, e não por medidas generalizadas que podem gerar distorções econômicas e sociais”, concluiu.

O programa contou ainda com a participação do presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e Serviços (Contracs), Julimar Roberto de Oliveira; do deputado Saullo Vianna (MDB-AM); e da pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Joana Simões de Melo Costa. A população de Brasília também participou, enviando perguntas e opiniões ao longo da transmissão.

A íntegra do debate está disponível no canal da TV Câmara no YouTube:

Faça seu comentário
Rolar para cima